quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Entrevista: Mariana Stori (Especial Outubro Rosa)

Entrevista emocionante da Mariana Stori, 34 anos, linda e grávida de 8 meses da Nina, uma bebê guerreira como a mãe.



1 – Você estava voltando de uma viagem dos sonhos quando descobriu que estava grávida né? Você e seu marido planejavam uma gravidez agora?

Nós queríamos engravidar depois de retornar ao Brasil e termos nos recolocado profissionalmente. Mas é o que eu costumo dizer: não planejamos, mas não evitamos! Ou evitamos muito mau! Apesar de termos nos assustado, ficamos também muito felizes com a notícia!

(A foto é na Muralha da China)


2 – Junto com a notícia da gravidez que é uma benção, você também descobriu um câncer de mama, que com certeza foi uns dos momentos mais difíceis na sua vida. Como foi esse momento? E seus pensamentos? 

Eu senti o nódulo na minha mama no mesmo dia em que o exame de farmácia deu positivo. O prognóstico de câncer de mama veio quase 2 meses depois, quando retornamos ao Brasil, mas confesso que estava muito intrigada e desconfiada nesse período de espera. No exato momento em que li na tela do computador “carcinoma”, o mundo desabou na minha cabeça e em frações de segundos todos os pensamentos possíveis se cruzaram: grávida, câncer, aborto, desempregada, vida, morte. Eu, minha mãe e minha avó choramos juntas durante 5 minutos e depois disso meu instinto de sobrevivência (e o materno também) falaram mais alto e partir daí consegui me manter firme e focada na cura! Eu já tinha ouvido falar que em alguns casos era possível fazer o tratamento mesmo estando grávida e torci para que fosse meu caso. E foi! Tive muita sorte!


3 – Sua vida mudou muito, claro! Como você descreve essas mudanças, como você enxerga o mundo hoje? Seus valores mudaram?

As mudanças mais clichês realmente acontecem: você passa a valorizar mais pequenas coisas da vida, se arrepende de ter se estressado com problemas supérfluos, etc. Mas as mudanças mais importantes pra mim foram: 1) Aprendi a sentir genuinamente gratidão. Acho que antes disso eu nunca tinha nem parado pra pensar nessa palavra e ela se tornou um mantra na minha vida. Foram tantas pessoas entre família, amigos, amigos de amigos, orando, me mandando energia positiva, me acompanhando com tanto carinho que a gratidão se tornou o sentimento mais presente em mim. E isso me faz bem! 2) Prioridades. Minhas prioridades mudaram com certeza, vivi muitos anos focada somente em trabalho. Não me arrependo, mas agora quero construir uma vida diferente, com mais tempo para o meu marido, minha família, mais tempo para cuidar de mim, mais qualidade de vida, até porque isso é essencial para quem tem câncer uma vez que estresse, má alimentação e falta de atividade física são fatores que influenciam no surgimento do câncer.
A sensação de que o mundo é finito, que a vida acaba e pode acabar a qualquer momento... é indescritível, só quem passa sabe. A sensação de morte é o maior chacoalhão que uma pessoa pode levar da vida. Não tenho palavras pra descrever, mas posso dizer que senti simultaneamente muito medo acompanhado de uma paz, uma tranquilidade de saber que vivi intensamente minha vida e fui muito feliz. É uma coisa maluca!


4 – Quando você descobriu sua gravidez e o nódulo, você estava de quantas semanas? E como foi dar início ao um tratamento desse porte, junto com a gestação?

Eu descobri a gravidez e o nódulo com 5 semanas e com 14 semanas de gestação veio a confirmação do câncer, ou seja, eu já estava com mais de 3 meses. Tive que esperar até a semana 20 para poder fazer a cirurgia de retirada do tumor com mais segurança para a bebê e na semana 23 iniciei o tratamento quimioterápico. As datas foram pensadas para que a Nina corresse o mínimo de risco possível.
Os médicos sempre me tranquilizaram muito e o fato de confiar plenamente neles fez com que eu não ficasse me remoendo e não sentisse culpa por estar expondo a Nina a tudo isso. Eu fiquei muito segura de que tudo daria certo e por enquanto deu!


5 – Embora com a medicina avançada, sua bebezinha não sofreu nenhuma seqüela? O que você pode e não pode fazer de tratamento por causa da gestação?

Na cirurgia eu tive que ser submetida a uma anestesia geral, com isso a Nina também recebeu a anestesia. Não fez mau nenhum a ela, mas ela também foi anestesiada. Que dó que eu fiquei! Operei pela manhã e a noite fiz um ultrassom para confirmar que estava tudo bem com ela. Um pouco antes do ultrassom já senti ela se mexer e foi um grande alívio, ficamos muito felizes que em nada a prejudicou.
Em relação a quimioterapia é muito importante explicar que ela é customizada de acordo com as características do tumor. Os remédios que compõem a quimioterapia são sempre específicos para cada caso e no meu, dos dois remédios que tomei, apenas um realmente chegou à placenta, ou seja, ela também recebeu a medicação. Assim como o meu sistema imunológico foi afetado, o dela também. Porém como eu já estava no quarto mês de gestação, a formação básica da Nina já tinha acontecido, então não há riscos de sequelas, a quimio não afetou o desenvolvimento dela.
Uma curiosidade, a quimioterapia basicamente mata células que estão em reprodução e é por isso os cabelos caem, pois suas células estão sempre se reproduzindo. Como ela também recebeu a quimio, ela provavelmente nascerá carequinha e sem pelos, como eu estou!
A última fase do meu tratamento é fazer radioterapia e só irei fazer depois que ela nascer. Quando ela tiver 10 dias de vida devo começar as sessões. A mama que irá receber a radiação não poderá ser usada na amamentação, mas a outra sim! Vejam que coisa boa, ainda vou poder amamentar! Insisto, tive muita sorte em todo esse processo!


6 – Fora a doença, você está tendo que se cuidar fora do normal? Como cuidados com alimentação, peso, pele essas coisas de grávida? Por exemplo, se você tiver vontade de comer as coisas você pode? Ou sua alimentação esta restrita por causa do tratamento?

Em relação a alimentação, meu oncologista foi categórico: defina uma boa alimentação para a sua gravidez e depois você pensa no câncer! Mas confesso que já absorvi diversos hábitos anti-câncer. Tento consumir o máximo de frutas e verduras orgânicas e estou evitando alguns alimentos que são cancerígenos como o açúcar e produtos industrializados.
A quimioterapia me impôs um quadro de anemia muito crítico e para tentar contorna-lo (apesar de ser quase impossível) fiz uma dieta riquíssima em ferro com o apoio da minha mãe e da minha avó. Todos os dias comia beterraba, couve, feijão e carne sempre acompanhados de suco de laranja para ajudar na absorção do ferro. Evitei café e chocolate que prejudicam a absorção. Credito à boa alimentação o fato de não ter enjoado com a quimioterapia, não ter tido aftas ou herpes, efeitos colaterais bem comuns nesse caso. Praticamente não tive efeitos colaterais, só me sentia muito cansada por conta da anemia.
Na gravidez já temos que evitar o sol para não manchar a pele e a quimio também impõe essa restrição. Sol nem pensar! O risco de manchar era maior.
Usei produtos normais para evitar estrias como Óleo da Weleda e cremes da Mustela. Até agora nenhum sinal delas!
Engordei até agora 7 quilos, estou muito satisfeita!

(Weleda - óleo que você está usando para estrias)


7 – Mesmo em tratamento você está curtindo a gravidez e fazendo todos os preparativos, como chá de bebê, enxoval, quartinho essas coisas todas?

Tudo isso foi essencial para que eu conseguisse manter o bom humor, o ânimo e a alegria. A Nina fez com que esse período não fosse o pior da minha vida. Na verdade ela fez com que essa fosse a melhor fase da minha vida, acredita?! Encarei o câncer como a maior lição que a vida me deu e sou extremamente grata por ter vivido tudo isso grávida. Costumo dizer que não é bom ter câncer na gravidez (claro, você não quer expor seu bebê ao tratamento), mas é muito bom estar grávida com câncer, porque a gestação se sobressai a doença!
Todos esses preparativos suavizaram o tratamento, me entretinham diariamente. Fiz chá de bebê sim e acho que foi um dos dias mais felizes da minha vida! Todos estavam transbordando energia, foi lindo!
Só tive o cuidado de antecipar tudo o máximo possível, pois eu não sabia como estaria lá na frente, no final do tratamento. Foi uma boa estratégia porque realmente os efeitos da quimio são cumulativos e você vai ficando mais cansada a cada sessão. Então logo no início do tratamento já montei o quarto e o enxoval, fiz o chá de bebê e a sessão de fotos de gestante no meio do tratamento e no final me restou descansar e cuidar de pequenos detalhes.


Fotos do Chá de bebê.


8 – Você vai poder amamentar a Nina?

Sim!! Apenas com a mama que não foi afetada, pois como farei radioterapia na mama onde estava o tumor, a própria rádio irá inibir a produção de leite.


9 – Como foi á escolha do nome Nina? Acho um nome lindo, delicado e carinhoso. Amei!

Nina é um nome que penso a muitos anos, não me recordo exatamente a primeira vez que tive contato com ele. Mas ela se chamará Nina Rosa, pois Rosa é o nome da minha avó! Homenagem à uma das mulheres mais guerreiras e batalhadoras que já conheci! E acho que tem tudo a ver com a Nina, que está sendo guerreira desde a barriga. Pra minha sorte meu marido amou o nome desde o começo.


10 – Como você descreve essa sua gestação?

Você não imagina como é difícil responder essa questão. São tantos sentimentos e eles são tão complexos! Mas veja, pra mim essa gestação significou salvação. A Nina me salvou, não do câncer, mas de um provável quadro de depressão, me salvou da falta de perspectiva, do desânimo. Ela me trouxe alegria e felicidade diariamente! Se eu tive muita sorte em todo esse quadro (e acreditem, tive mesmo!), a maior sorte de todas foi ter a companhia da Nina. Ela foi a base da superação, sustentando emocionalmente a mim e ao meu marido. Pensando bem até à minha família e amigos!
E se eu e meu marido sorrimos todos os dias dos últimos 5 meses foi por causa dela! E lutamos também por ela! Como eu tenho sorte!



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>> Câncer de Mama - façam auto exame!
Descobri o nódulo na minha mama em um auto exame – como faço diariamente no banho. Foi no mesmo dia em que descobri que estava grávida! Estávamos em Jerusalém, na reta final de nossa viagem de volta ao mundo.
O prognóstico veio 10 dias depois de termos retornado ao Brasil – era câncer, era raro, era ruim. Como já estava grávida de 3 meses, não precisaria interromper a gravidez para fazer o tratamento. Se tivesse de menos tempo teria que interromper, é protocolo. Vejam a conspiração do Universo! A medicina está tão avançada que os tratamentos não representam riscos para as crianças após o terceiro mês de gestação! 


As primeiras semanas foram muito difíceis. Até entendermos o cenário e começar a mergulhar nesse universo leva um tempo e é natural ficar assustado. Em nenhum momento me senti injustiçada pela vida, sempre pensei: tem alguma lição por trás disso e eu vou assimilar!
Operei no dia 15 de julho no Hospital AC Camargo (maravilhoso, perfeito, top, incrível) e não precisei retirar a mama inteira… nem precisei esvaziar a axila, o tumor estava totalmente localizado. Olha que coisa boa!
Aí veio um outro susto, o laudo da cirurgia era completamente diferente do laudo da biópsia que tinha feito. Era outro tipo de tumor, com outras características! Algumas pareciam melhores, mas a maioria parecia pior: ele era BEM mais agressivo! No meu entendimento, mais chance de metástase. Aí deu medo! E muito!
Passei 24 horas – sim, somente 24 horas – achando que iria morrer nova, que não iria criar minha filha. Foram as piores 24 horas da minha vida. Pela primeira vez pude distinguir o medo de morrer que vem da fobia (que eu tenho de avião por exemplo) com o medo de morrer de verdade! Foda.
Exatamente 24 horas depois passei pela consulta com meu idolatrado oncologista (Dr. Sergio Simon) e a “mágica” aconteceu! Nossa leitura foi totalmente errada, o cenário era muito melhor do que o cenário da biópsia! E as palavras dele foram “Parabéns, você pode se considerar curada! Não vai morrer disso… e eu acredito que você não terá metástase!”. Essa frase é meu mantra diário! Penso nele falando isso todos os dias e sempre que penso me pego com um baita sorriso no rosto!
É tão tão fácil entrar numa paranóia do câncer voltar, que só quem passa por isso sabe. Mas eu me dedico diariamente a não permitir que esse pensamento venha e acontece que agora me sinto até arrogante, porque tenho uma certeza profunda que ele não vai voltar!
Já fiz 2 sessões de quimioterapia e faltam só mais 2, já foi 50%!  Depois que a Nina nascer vou fazer radio e ponto, fim de tratamento. Não vou entrar no mérito das transformações que esse processo está gerando na minha vida, mas eu só queria que todos soubessem que estou bem! Estou reagindo muito bem as quimios, sem enjôos, com poucos efeitos colaterais. É chato, dá trabalho, cansa, mas gente, é a vida! Não é mamão com açúcar pra ninguém.
Ando insuportavelmente animada e feliz! Ouso dizer que nunca fui tão feliz na vida, acreditam?! Mas gente… pensem… eu achei que ía morrer! Tipo, logo! E não, eu não vou! Tem como não ficar feliz?! Ah mas não é só isso claro… tem ela… a Nina. Essa danadinha que escolheu o momento certo pra vir me acompanhar (nem acredito muito nisso, mas é tanta coincidência que sei lá!). Lembram do aborto no ano passado? Pois bem, não teria momento melhor para essa coisiquinha pululante voltar! E a bichinha já é guerreira desde a barriga e está enfrentando tudo com uma energia incrível, ela não para de mexer!
Mas também não é só isso… e o marido incrível? Não temos nem 3 anos de casados e parece que estamos juntos desde sempre! Tudo isso nos uniu tanto, mas tanto. Como sou grata de ter uma pessoa tão maravilhosa ao meu lado! Amo!
E a minha família? Bom… quem me conhece sabe como é o Clã Stori. É foda! Mãe e pai que nos acolheram em casa (de novo! Rs), irmão, vó, tia mãe, tios, primos simplesmente estão comigo o tempo todo falando, incentivando, me jogando pra cima. Uma observação especial pra irmã: sem você, simplesmente não daria. Obrigada.
E os amigooooos???? O que é isso???? Quanto amor! Quanto cuidado! Quanto carinho! Gente próxima que se aproximou mais ainda, gente não tão próxima que me emociona com mensagens lindas! E aqueles melhores amigos, que tem a maior paciência do mundo e falam comigo todos os dias, ouvem minhas histórias, acompanham todos os detalhes, todos os dias. Amo!
E as minhas amigas do peito, especialmente as 3 mulheres que me acolheram desde o início, serei eternamente grata! Fabi, Adri e Marcela!
Enfim! Estou escrevendo tudo por isso para falar 2 coisas importantes:
>> Para que saibam que tanto eu quanto Nina estamos bem! Fiquem tranquilos! Essa foto foi tirada segunda-feira agora.
>> AUTO EXAME: se eu não tivesse o hábito de fazê-lo, com certeza esse texto seria todo diferente. Mulheres, o que custa dar uma apertadinha nas mamas durante o banho??

E é isso! Hoje é o último dia do sexto mês de gravidez! Amanhã começa o terceiro trimestre e junto com ele vem o encerramento das quimios, o nascimento da Nina e mais… mais… e mais felicidade na minha vida!
Obrigada a todos pelas mensagens, aos poucos estou respondendo uma por uma! 
Beijos


Mari e Nina



Mari, amei essa experiência, você é uma guerreira e vitoriosa. Sua fé motiva muitas pessoas, por isso achei importante repassar para minhas leitoras.


Sobre Outubro Rosa: Quando pensei em entrevistar a Mariana não  imaginei que daria certo a postagem no Outubro Rosa, as vezes acho que é um sinal de Deus, a onde todos estão em ação contra o Cancêr de Mama, essa guerreira nos mostrou que existe sim dificuldades na vida, mas que o importante é a Fé e a vontade de viver.

Muito obrigada pela entrevista Mari,

Queremos ver fotos da Nina Rosa.